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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ECOS DA IMPUNIDADE

Podia ouvir – se o piado da coruja pousada em cima do poste da esquina. A lua cheia encoberta por uma fina camada de nuvem, enfeita o pedaço do céu que cobre a provinciana cidade do interior mineiro.
O homem que trabalha como bóia fria, se levanta antes das 3 horas para se arrumar, ouve baixinho um antigo radinho de pilhas sintonizado numa frequência AM que toca  moda de viola e a cada 5 minutos informa a hora.
Ele esquenta a comida que será seu almoço. Faz 15 dias que se mudou para a cidade, antes morava num pequeno sitio arrendado que tivera que abandonar por causa dos prejuízos com a plantação de tomate. Agora trabalha como empregado numa fazenda de café, que é o forte na região.
O salário não é compensador, mas pelo menos consegue pagar o aluguel e comer. Mora só. Desde que a última companheira morreu, Herculano decidiu seguir a vida sozinho.  A primeira noite que passara na nova residência não lhe causara boa impressão. Por volta das 3 horas, ele ouvira um grito horrível, que ecoou pelos ares, seu corpo se ouriçou com os pelos arrepiados, o coração quase saindo pela boca, embora muito assustado timidamente ele abre o vitrô da frente, mas não vê uma viv’alma na rua, tudo calmo, nem um som. De repente ouve novamente o grito, que se repete uma terceira vez bem mais fraco e ofegante. Têm sido assim quase todos os dias no mesmo horário, o que acaba fazendo parte da sua rotina.
No caminho para o trabalho, numa estrada de terra ele repara num cruzeiro antigo de madeira, bastante corroído pelo tempo. Ele não sabe por que, mas associa os gritos àquela cruz, sente o mesmo arrepio da madrugada levantando os cabelos de sua nuca. É como se ele tivesse misteriosamente recebido uma revelação do além. Especulando pela vizinhança fica sabendo que muitos moradores também ouvem, mas se acostumaram com isso e não tinham o menor interesse de saber a sua origem. Depois de meses ouvindo o pavoroso grito, Herculano decide não trabalhar naquela sexta feira, se levantaria mais cedo e esperaria às 3 horas, sentado debaixo do cruzeiro. Ansioso, nem dormiu direito, pegou uma lanterna para iluminar a estrada porque a cruz se encontrava num local ermo, fincada debaixo de uma frondosa árvore, passou a mão num cobertor que ajeitou nos ombros e seguiu decididamente. Sentiu vontade de assobiar enquanto caminhava, mas o silencio parecia ser melhor companheiro para que ficasse sempre em alerta.  Pensou em rezar, as orações que sabia eram simples e logo o repertório acabou. Ao longe vislumbrou a grande árvore, convidativa durante o dia, mas na escuridão da noite parecia solitária e fantasmagórica abrigando a cruz de madeira velha meio retorcida. Herculano olhou para o relógio, faltavam 40 minutos para as 2 horas, estava frio, especialmente ali naquele lugar, um vento gélido batia em seu rosto. Ele apertou o cobertor junto ao corpo. Ajeitou- se o melhor que pode, procurando manter certa distância da cruz, porque a proximidade dela causa- lhe certo mal estar. Teve a impressão de não estar sozinho ali, o que aumentou suas expectativas. Dez minutos de isolamento na friagem da madrugada pareciam horas. O homem sente seu coração disparar quando ouve o trotar de cavalos e um vozerio se aproximando da paineira...


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VINGANÇA ALÉM DA VIDA

Dezembro de 1970. Maria Tereza acordou naquela manhã de sábado com uma estranha sensação tomando conta de seu espírito.  Abriu a enorme janela que dava para a sacada, ficou uns instantes se espreguiçando molengamente e olhando para o jardim da frente da casa. Sentiu o perfume das flores penetrando suavemente em suas narinas. Os pardais faziam festa e podia se ouvir o zumbido de abelhas em uma colméia próxima. A inquietação fazia seu coração palpitar acelerado. Desceu para tomar café, a mãe fizera bolo de cenoura, o seu preferido. Conversaram um pouco e ela avisa que ira visitar uma amiga. A mãe ficou tranqüila e feliz, pois tem certeza que a filha terminou o namoro que incomoda todos naquela casa. Maria Tereza sempre fora uma filha exemplar, estuda em um tradicional Colégio de freiras, o melhor da cidade, está com dezesseis anos de idade e namorando pela primeira vez. Conhecera o namorado na porta da escola, onde era costume naquela época a rapaziada “fazer soca” para paquerar as estudantes. Mês de fevereiro inicio das aulas, tudo era novidade, Maria Tereza conversava alegremente com as amigas quando pressentiu que alguém a olhava. Ao virar-se ficou frente a frente com um jovem sedutor, de olhos e sorrisos que lhe atraíram como um imã. Ele tomou a iniciativa de se apresentar, desde então se encontravam todos os dias, iam ao cinema; tomavam sorvete; reuniam-se com os amigos num lugar chamado Vereda, local cheio de trilhas e de lindas quedas d’água, assim cada dia mais apaixonados o amor que os unia se fortalecia. Quando Maria Tereza tomou a decisão de apresentá-lo aos pais,  julgou que seria aceito e amado também pela família. Ledo engano, o namorado tornou- se persona non grata em sua casa. A pressão para o término do namoro tornou- se insuportável, Maria Tereza sofria muito, em casa ficava triste e calada. Mas nada comovia seus pais que não aceitavam de maneira alguma o relacionamento da filha. Ela mentira dizendo que terminara o namoro. Em contrapartida o namorado é extremamente passional e do seu jeito faz enorme pressão psicológica em Maria Tereza, o ódio pela família dela tornou-se tão grande quanto seu amor pela namorada. Ele lhe pedia provas de seu amor, e Maria Tereza sempre lhe dava demonstrações de que o amava incondicionalmente. Mas naquela manhã de sábado, Maria Tereza lhe daria a maior prova de todas. Eles combinaram de se encontrar às 10h, fariam um passeio sem volta até uma cachoeira afastada da cidade. Ela não contou a ninguém aonde iam, era um segredo dos dois. Ela amarrou os cabelos num grande rabo de cavalo, vestiu seu jeans, calçou o tênis e foi ao encontro do namorado que a esperava no automóvel do pai. No chão do veículo dentro de um saco plástico estavam duas facas de açougueiro muito afiadas...
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Nívea Sabino

domingo, 12 de dezembro de 2010

AMOR VIRTUAL




QUEM É VOCÊ  QUE APARECEU
ENTRE MILHARES
E ROUBOU MEU CORAÇÃO?

QUEM É VOCÊ QUE DEIXA MEU CORPO 
EM FRÊMITO
SEM O TOQUE DE SUAS MÃOS,
SEM O SOM DA SUA VOZ?

QUEM É VOCÊ QUE ME SEDUZ
PELAS LETRAS E PALAVRAS
TECLADAS COMO SE FALA
MAS LIDAS E ABSORVIDAS?

UNINDO BOCAS, 
PALATO E NARIZ?
CONFUNDINDO CHEIROS
COM DESEJOS E LIBIDOS...
EXACERBADOS DESEJOS
NO MOMENTO SUBLIME
JOGADOS AO VENTO COM URROS
UIVOS E GEMIDOS?

QUEM É VOCÊ,
QUE POVOA MEUS SONHOS?
QUE OUSOU SAIR DA TELA 
PARA ROUBAR MEU CORAÇÃO?!


Nivea Sabino

ESPINHO NA CARNE





Remexendo o baú de suas lembranças,  Bethina, melancolicamente  recorda- se de certa vez que acordara muito contente, adorava fins de semana, principalmente o sábado. O domingo ela achava um dia triste. Lembra que ao abrir a janela do seu quarto  sentia o cheiro gostoso de flores entrar carinhosamente pelas suas narinas. Estavam no mês de maio do ano de 1977, dia 14, seu aniversário de 16 anos. Seus pais são de família abastada de rica região de Minas Gerais, sua mãe chama-se Antonia, e seu pai Leopoldo, casaram- se no ano de 1959, no mesmo mês  que a filha nasceu dois anos depois. Filha única,sua mãe sofreu um grave problema durante o seu parto e foi obrigada a ser histerectomizada. Mulher delicada estudou em colégio interno, cuida com desvelo da  casa e tem um amor desmedido por Bethina e pelo marido. Ela gosta muito de ler e  passou esse costume  para a filha e acabou virando mania. Leopoldo é produtor rural, passa a maior parte do tempo cuidando de plantações e animais, administra sozinho todas as propriedades rurais que são herança de família. Ele compra e vende gado, planta café, e é muito feliz no que faz. São uma família pequena, mas feliz. Ás vezes Bethina desejava ter outros irmãos, e sentia que seu pai compartilhava desse desejo, em várias ocasiões o ouviu dizer para sua mãe que seria ótimo ter outro homem na família para ajuda- lo na administração. 
Sábado é sinônimo de festas, pelo menos na cidade onde moram, o Clube mais movimentado do lugar fica lotado nesse dia.
Foi lá que a linda jovem começou namorar Otávio, numa noite de luar com direito a estrela cadente. 
Ficaram noivos e casaram- se em 1979, na Igreja linda e tradicional, uma cerimônia muito comentada.
Otávio passara no concurso do banco e posteriormente moraram em algumas cidades porque ele passou a exercer o cargo de gerente e precisava ser transferido.
Numa noite fria de junho  de 1981 nasceu seu filho, seu amor, sua vida, Pedro, o bebê mais lindo que ela jamais vira igual, e também a criança mais solitária que conhecera. Muito inteligente e obediente, e também muito amoroso. Cresceu assim: falando pouco, estudando muito, sem dar qualquer preocupação aos pais. Otavio o amava e fazia tudo para que o acompanhasse por onde fosse, mas o que Pedro gostava era de ficar só, escrevendo, lendo ou desenhando. O avô nutria por ele verdadeira adoração e sofria quando partiam na época das férias.  No mês de dezembro de 1984, perto do natal Bethina ganha um belo presente sua filha Mariana, o oposto de Pedro. Alegre, barulhenta, extrovertida. Estava sempre alegrando a todos em casa. A avó a cobria de mimos, existia mais intimidade entre as duas, do que entre Bethina e  elas. Seus filhos cresceram, seu marido conseguiu uma promoção e voltou a gerenciar o banco em sua cidade natal. Pedro faz faculdade de Direito e estágio na promotoria, raramente se entretem com algum colega e não tem amigos, se tornara bastante depressivo, faziam tudo para agrada- lo. Completara 23 anos de idade e  não namorava, não tinha vontade de sair para se divertir, estava sempre em casa estudando ou ouvindo músicas de rock. Leopoldo estava idoso e depositava toda a sua esperança naquele neto. Mariana tem um jeito de menina, nem parece que está com 20 anos, há nela um quê de rebeldia, ciumenta do irmão, porque pensa que as atenções são  todas voltadas para ele, passara no vestibular para agronomia, faz tudo para agradar os avós maternos. Em 2004 compraram uma linda casa no condomínio de luxo dos seus sonhos, lugar tranqüilo e seguro, rodeados de pessoas amigas, não poderia existir ambiente melhor para se viver. Os quartos ficavam no andar superior, e inevitavelmente Bethina passava pelas suítes dos seus filhos para chegar até a escada que dava acesso para as salas e a cozinha. Era muito gostoso sentir a presença deles todos os dias, ela não se imaginava sem eles, evitava até mesmo os pensamentos de que um dia eles morariam em outra cidade ou estado ou país. Mariana frequentava uma universidade em outro município mais vai e volta todos os dias e Pedro estava sempre em casa. Seu filho estava se arrumando para sair, teria uma audiência pela manhã, ela parou no quarto dele, deu um beijo e um abraço e falou: 
- Meu filho, eu te amo tanto que chega doer. Suspirou e esperou uma resposta que não veio.
Então disse a ele que traria um copo de suco, pois ele mal tomara café da manhã. Ele lhe agradeceu ela então desceu para buscar  na cozinha. 
Quando retornava,  pisando o primeiro degrau da escada com o copo na mão, ouviu um barulho e na hora não definiu que tipo de som  era aquele. Ela continuou subindo as escadas e comentou:
-Filho, você ouviu o barulho? O que será que pode ser? Pedro?
Quando adentrou no quarto, ela soltou o copo que se espatifou no chão. Seu filho estava caído na cama, inerte. Ela vê  o sangue no lençol, e do lado de Pedro o revolver que parecia ser da coleção de Otávio...



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Nívea Sabino

SINA

Mariângela é uma criança muito ativa, a mãe costuma dizer que sua vida é alegre por causa da filha, uma bênção do céu para ela. E assim a menina cresce e continua sendo um alento na vida materna. A jovem trabalha como empregada doméstica na residência de dona Tereza, professora aposentada que mora sozinha, não tem filhos e considera Mariângela como pessoa da família. A moça é um encanto, faz o trabalho de casa com amor e trata a professora com muito carinho e respeito. Dona Tereza parou de lecionar e voltou toda sua atenção para a informática, suas amigas não entendem como pode se interessar por aquela máquina complicada, mas para a educadora é uma forma que encontrou para driblar a solidão. Época de internet discada, congestionamentos na rede, mas até isso é diversão para a solitária mulher. Sempre aconselha a jovem funcionaria a estudar, mas Mariângela diz:
- Estudar de que jeito dona Tereza? Saio daqui por volta das três horas da tarde e vou fazer faxina em outras casas. Minha mãe coitada somente com a lavação de roupa pra fora, não dá conta sozinha da despesa de casa, somos seis irmãos a senhora sabe, e apenas meu irmão Marcílio que trabalha de ajudante na feira livre, mas tem só 12 anos, não consegue quase nada de grana. Meu pai a gente não pode contar com ele, passa semanas abraçado num litro de cachaça, jogado na rua, nem o caminho de casa ele encontra.  Deus me perdoe, mas é até bom, porque quando chega bêbado em casa maceta todo mundo. E assim como se tivesse decorado o texto, é sempre essa a explicação para justificar o abandono da escola.
Dona Tereza sente profundo amor pela moça que desde quatorze anos de idade trabalha para ela, é a filha que não teve além de assídua ao trabalho é ótima companhia, tanto que a professora convidou- a para morar juntas, a casa é grande e confortável, e a jovem poderia cuidar de estudar. Mas Mariângela não deixa a mãe que precisa dela. A afeição da aposentada por ela gerou inclusive o desejo de fazer da funcionária sua herdeira. Mas o mal do ser humano é pensar que seja eterno. A professora pensou mais não agiu e o tempo passou e a idéia não se concretizou ficou apenas na intenção.

Um dia Mariângela chegou para trabalhar, chegava cedo antes das 8 horas, e estranhou porque a porta estava com uma chave nova e a sua não girou na fechadura, então uma vizinha veio correndo gritando seu nome.
A moça pergunta o que está havendo, e a mulher explica que na noite anterior a professora teve uma crise aguda de asma e com muito custo ligou pedindo socorro, que a casa estava trancada que ela e o marido tiveram que arrebentar a fechadura, por isso pôs uma nova. Que dona Tereza ficou muito mal, não pôde leva- la de carro para o hospital foi necessário chamar a ambulância.
Cinco anos convivendo com a bondosa conselheira foi muito difícil quando ela morreu. Enquanto estava hospitalizada Mariângela continuou limpando e arrumando a casa como se a patroa estivesse ali. Mas alguns meses depois ela faleceu e vieram os sobrinhos distantes e levaram tudo que ela possuía, até o querido computador, venderam a casa, pagaram o salário do mês e nem um muito obrigado para a jovem funcionaria.
Mas a vida para Mariângela continua, na mesma labuta, agora trabalha de faxineira no shopping movimentado da cidade. Está com vinte anos de idade, cheia de esperança pensa agora encontrar um namorado, o desejo de ter sua própria família, bem diferente da que foi criada aflora em seu coração.
Foi assim com essa vontade de firmar compromisso que nossa protagonista conhece o José Carlos numa festa de roça, dessas que tem no interior que a prefeitura empresta ônibus para levar as pessoas da cidade. Nesse dia a jovem estava cansada, nem dançou por muito tempo, não tendo o direito de voltar sozinha a não ser se fosse a pé, ficou sentada em um banco mais afastado do barulho apenas olhando o movimento. Um rapaz moreno, magro, dois palmos mais alto que ela se aproxima com uma lata de cerveja e oferece para ela.
- Agradeço, mas não bebo. (Ela tem horror à bebida etílica por causa do sofrimento que passaram com o pai alcoólatra que morreu de cirrose).
- Mas nem um gole, menina linda? Ele sorri um olhar terno e muito envolvente.
- Não, mas aceito um refrigerante. E os dois vão juntos para a barraquinha comprar um guaraná.
Conversam sobre tudo. Ele é pedreiro, tem 23 anos, mora sozinho, veio de outro estado para trabalhar.
Começam a namorar, ficam noivos, e em seis meses estão casados. A moça alegre e cheia de esperança começa a morrer aos poucos. Tem o primeiro filho, e começa seu martírio.  O marido carrega o mesmo demônio de seu pai o vicio da bebida, durante um tempo ele consegue disfarçar o mau habito, mas aos poucos revela a crueldade que o álcool desperta em seu corpo.
Estão casados há três anos, tem dois filhinhos e Mariângela está grávida do terceiro. O amor virou violência, o prazer um martírio, não agüenta mais ser violentada e espancada pelo companheiro, e pior que agora ele também está se voltando para os filhos pequenos. A noite anterior ele tentou dar ponta pés em sua barriga, dizendo que não dará de comer mais uma boca. Ela dormiu do lado de fora da casa abraçada aos dois filhos menores, uma menina de cabelos negros cacheados e lindos olhos negros tristes, e um menino que é a cara do pai, a quem ela abençoa todos os dias rezando para que ele não tenha herdado o maldito vicio do pai e do avô. Dessa vez o pavor foi maior, estava frio, eles ficaram chorando baixinho, as crianças ainda dormiram abraçadas a ela, mas Mariângela não cochilou, ficou atenta curtindo o medo do marido e sentindo o filho pular em seu ventre.
Amanhece Zé Carlos sai cedo para trabalhar, assim que ele dormiu lá pelas seis da manhã ela guarda os filhos na cama, corre fazer o café forte que ele gosta, uma ou duas horas de sono são suficientes para dar novo ânimo ao homem que se diz seu esposo. Assim, como se nada tivesse acontecido na noite anterior, ele toma o café e diz que a noite estará de volta. Ela conta cada hora do dia que passa a tensão, o pavor aos poucos toma conta de sua alma e vê esse mesmo medo nos olhos inocentes dos filhos.
Passa das 19 horas, ela está terminando o jantar, quando ouve o portãozinho da frente bater com força. Ele chegou. “Está bêbado, seus passos duros se aproximam da porta da cozinha, ela escuta seus resmungos: ‘ mais uma boca, mais uma boca, não sou burro de carga...” Mariângela sente seu coração pulsar rapidamente, a sensação é que vai sair pela boca, já deu janta para os filhinhos e mandou que fossem para o quarto, o mesmo ritual de sempre tentando preserva- los da violência doméstica. Ela está virada para a pia, acabara de lavar uma faca que cortara o tomate para a salada do marido.
Zé Carlos entra violentamente na cozinha e diz:
- Hoje eu arranco essa sanguessuga da sua barriga... E vai com tudo para cima da mulher, ela assustada vira- se e a faca em sua mão perfura as entranhas do bêbado que cai gemendo...



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Nívea Sabino

DREADLOCK E EU

Um dia crio coragem e faço Dreadlock...
Jogo uma mochila nas costas
Contendo uma barraca que
Caberá tão somente Dreadlock e eu...

Vamos conhecer todas as praias,
Ver o encontro das águas do rio com o mar,
Terras distantes a nos esperar
Vamos de carona...

Alimento não nos fará falta,
Venderemos histórias em troca de suprimento...
Cansei de desejar, cansei de sonhar...
Quero viver a realidade Dreadlock  e EU....









Nivea Sabino

O gato

O gato atravessando a rua, em pensamento voltei no tempo...
Uma saudade da Salomé!
A morte é assim, um baque ou um toque sutil de veneno.
Nivea Sabino

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A CASINHA DA RUA AVARÉ






É noite de lua cheia, a rua está clara. Sandra, José Augusto, Álvaro, Maria Emilia e Miguel, gostam de ficar na porta da casa de Zé Augusto ouvindo as histórias de assombração que ele é exímio em contar. Mas de vez em quando ele conta umas histórias reais com personagens que viveram e respiravam como todos nós.
Algumas dessas histórias ele repete sem cansar, e todos os amigos ouvintes também não se cansam de ouvir. Um exemplo de casos assim é o da Casinha da Rua Avaré.
Zé Augusto conta que a casinha branca abandonada cuja linda construção o tempo está dilapidando aos poucos, em época remota possuía um alpendre acolhedor com lugar para sentar- se e ver o por do sol, encher a visão dos últimos raios do astro rei sobre o jardinzinho ornado de lindas flores e de um gramado verde e bem cuidado.
A casa fora construída para abrigar um jovem casal, Maria das Dores e Ernesto. Casaram- se com o firme propósito de ter uma família.
- Quero muito uma filha para me fazer companhia. Vou ensina- la costurar e bordar então será muito prendada.
Ernesto ria e dizia:
- Que nada, teremos somente filhos machos, pois tanto na sua família quanto na minha os homens são maioria.
Das Dores sorria um sorriso triste, com medo das previsões do marido.
Dois anos de casados e tiveram o primeiro filho. Nascera um menino, mas nascera com problemas no coração e viveu poucas horas. A dor que aquela mulher sentiu faz jus ao seu nome. Passaram- se mais de três anos e nada de gravidez outra vez. Das dores sofre, pois sonha com a filha que herdará seu legado. Ernesto dá menos importância a isso, parece que o pai ama menos os filhos que a mãe. Quando Maria das Dores está com 38 anos, e já nem pensa em ter mais filhos, tem uma grata surpresa. Amanhece com enjôos matinais, não suporta certos odores e uma fome de loba passa a fazer parte de seu cotidiano. O marido lhe diz:
- 'Das dor', minha querida, melhor você ir ao médico, estou achando você inchada, até sua boca está vultuosa. Receio que seja algum problema renal.
Ela fora consultar- se e volta para casa com a novidade, está grávida.Fez o pré natal com exames preliminares, até um tipo de ultrassom que estuda o coração e outros órgãos do bebe ainda no ventre materno ela fez.
E nove meses depois nasce a filha tão esperada, tão aguardada quanto a fortuna pelo desvalido.
O casal fica muito feliz. A casinha branca de belo jardim é reformada, a filha chega ao lar que está cheio de luz e de paz.
Quando a menina Clarice, estava com cinco anos de idade, Ernesto sofre um infarto e morre a caminho do hospital.
A linda casinha entristeceu- se mais uma vez. Ficaram Clarice e Das Dores vivendo ali, uma cheia de vontades satisfeitas e coberta de mimos, outra vivendo de lembranças, de saudades e de sonhos de ver a filha progredir aprendendo como ser uma boa mãe e ótima dona de casa, esse é o legado que ela tanto fala e pretende deixar para a filha.
Mas a vida tem dessas coisas, disse Zé Augusto enquanto contava a história, e presenciava algumas lágrimas nos cantos dos olhos das meninas que o ouviam, a filha Clarice está crescendo, embora a mãe zelasse por sua conduta, de menina desobediente passou a ser uma adolescente rebelde.
Maria das Dores sente o peso da idade aumentando, está com mais de cinqüenta anos e tenta enfiar na cabeça da filha um pouco de juízo. Jamais quisera sentar- se frente a maquina de costura, quando o assunto era o bordado então ela dizia:
- Isso é um saco! Já disse que não quero aprender.
-Se é assim, você tem que estudar minha filha! Diz a mãe desolada.
A resposta é sempre a mesma:
- Ah, mãe não enche.
Por fim o mais desagradável acontece, a moça está namorando um rapaz muito mal visto nas vizinhanças. Irresponsável, não gosta de trabalhar e tem fama de baderneiro, não estuda e fica na rua perambulando sem interesse em nada. Clarice não ouve os apelos da mãe.
Quando faz uns seis meses que ela está com o tal rapaz, chega em casa e diz para a mãe que está grávida.
- Como grávida, Clarice. É o cúmulo da irresponsabilidade, filha. Você não estuda, não trabalha e ele também não. Pior ele gosta de ser vagabundo. E agora?
Zé Augusto conta que a noite nesse dia estava radiante, as estrelas pareciam um tapete no céu, cheio de pontinhos brilhantes, mas das Dores que adorava ficar apreciando a noite sentada no aconchegante jardim, dessa vez não sente nenhuma vontade de apreciar a natureza.
Ela discute com a filha.
- Mãe estou grávida de quase cinco meses, não posso tirar esse filho agora.
-Minha filha, aborto, nem pensar. Você precisa agora criar juízo, responsabilidade para educar esse ser que vai chegar. Você agora é mãe, e o seu namorado precisa também arranjar trabalho. A moça começa a rir:
- Você ta doida mãe, você que tem que me ajudar com esse pirralho, o Wilson não tem nada a ver com isso ele odeia criança.
A mãe chorando responde, com um grande aperto no coração, mas pensando que a decisão dela fará a filha mudar de vida:
- Clarice, nunca disse não a você, e acho que errei mais que ajudei. Mas agora a minha decisão está tomada, não vou ajudar você com essa criança.
Deus me deu somente uma filha, você, que não supriu minhas expectativas. Não ajudo você com mais nada, muito menos com seu filho.
Nesse momento a jovem tem uma crise, chora e grita,  dizendo para a mãe:
- Vou me matar, assim você fica livre de mim para sempre.
A mãe arrependida sai correndo atrás da filha dizendo:
- Volte Clarice, não faça isso, eu cuido do bebe, como cuidei de você. Volte eu amo você e meu neto, volte filha!
Mas a moça, não deu ouvido às palavras da mãe e saiu correndo de dentro da linda casinha branca em direção à rua. Vem vindo um automóvel, em velocidade regular, o motorista está atento, mas não tem tempo de desviar da mulher que aparece de repente na frente do carro...



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Nívea  Sabino


ABANTESMA CONTOS NATURAIS E SOBRENATURAIS

“Quando tudo parece sem saída sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo.” (Caio Fernando Abreu)





SINOPSE
“ABANTESMA é um convite ao leitor para rir, chorar, meditar, com os diferentes personagens e situações diversas.  Os contos retratam o cotidiano e sequer situações inusitadas.
Passamos a vida correndo de fantasmas e ao mesmo tempo nos confrontando com eles. O medo, no entanto não nos impede de sentirmos alegria nem de evitarmos as tristezas.
Afinal, o homem busca paz, amor, sucesso, dinheiro, fé, esperança, durante sua jornada na Terra. Na maioria das vezes não encontra nada do que procura, mas pode encontrar também o que nunca buscou. Dizem que é no silencio da noite que o natural e o sobrenatural se misturam.
A vida tem segredos que talvez jamais sejam revelados e a morte tem seus mistérios insondáveis. O cotidiano, as mudanças, sonhos desfeitos, a vida e a morte envolvidas em circunstâncias naturais e sobrenaturais.   


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ASSISTAM - JOSANE PEER - O POETA DO ROCK

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