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quinta-feira, 22 de julho de 2010

VINDICTA





A noite estava fria, e  a rodoviária totalmente exposta acentuava ainda mais o vento gélido que batia no rosto de Valéria, fazendo suas lágrimas descerem úmidas e geladas pela face abatida.
O filhinho dorme mansamente em seu regaço, alheio a toda tribulação que ocorre em suas vidas.
Valéria sempre fora uma mulher de fibra.  O casal que empregava seu pai, donos da fazenda que eles residiam levaram- na ainda criança para morar com eles, com o propósito de ajudar nos afazeres domésticos e em contrapartida estudar na cidade. Sentia desejo de visitar a família, mas o pai trabalhava como administrador rural e não tinha parada, até que perdeu totalmente o contato com a família. Os patrões sempre a trataram com respeito e dignidade, mas são muito idosos e quando fez 10 anos que residia com eles, a mulher ficou viúva, e a solidão foi a causa do seu definhamento. Os filhos vieram quando a patroa faleceu e depositaram na caderneta de poupança, uma espécie de indenização pelos anos de serviços prestados por Valéria aos seus pais, além do pequeno apartamento no antigo edificio da cidade. Não era muito, mas Valéria estava acostumada a economizar. Sempre estudara em escola pública e com esforço e dedicação conseguiu passar no vestibular para Direito quando estava com dezessete anos de idade.
Sobreviver apenas com os juros da poupança era quase impossível, mesmo não pagando aluguel, portanto resolvera entregar seu currículo em todas as firmas da cidade. Cidadezinha do interior, não tem muitas opções de emprego, mas espera que o curso de secretariado sirva para arranjar trabalho, pois faltam ainda dois anos para o bacharelado.
Finalmente chega uma proposta de emprego, de um grande frigorífico da cidade, cujos donos eram pessoas influentes na sociedade.  Já ouvira comentários de que a empresa fazia parte de um dos pólos importantes de processamento de carnes do país, e que esse era um setor muito poderoso, que apresentou nos últimos anos elevados lucros com as exportações de carne.
O ritmo de trabalho no frigorífico, diziam ser muito acelerado, e que os trabalhadores faziam jornadas muito intensas, não tinham  tempo de ir ao banheiro. Que  eram obrigados a produzir determinado número de cortes por minuto. E isso em ambientes muito frios com temperaturas de 10°C ou menos. Ela ouvira dizer ainda que o dono da Empresa falecera e que a viúva administrava tudo com mãos de ferro, que o único filho era a pupila dos olhos da mãe.
Mas isso não tem a menor importância para Valeria, pois acredita que será apenas mais uma funcionária, trabalhando  longe das câmaras frias,  cujos contatos se restringirão  apenas às chefias do baixo escalão.
Na segunda feira chegou antes do inicio do expediente.
Nervosa aguarda o chefe de sua seção chegar. Reza para não gaguejar e entrar no ritmo do novo emprego.
Exatamente há uma semana que ocupa o quadro de funcionários do Frigorífico, nada de espetacular ainda ocorreu, até que vê adentrar no saguão principal, e se dirigir para sua mesa, o homem mais lindo que já vira em toda sua vida. Sente seu coração pular no peito, suas pernas amolecerem, fica estática olhando para ele, e a atração foi recíproca, pois o rapaz moreno, não muito alto, de sobrancelhas negras, boca carnuda e um sorriso encantador, demora alguns segundos para perguntar a ela se o supervisor de manutenção se encontra.
Valeria recupera o bom senso e pergunta quem devia anunciar. Surpresa ve- se diante do dono, ou melhor do filho da dona do frigorífico.
Depois desse primeiro contato, vieram muitos outros, e vieram também as juras de amor eterno, as promessas de uma vida a dois, regada a felicidade como se a vida fosse um mar de rosas.
Valéria, estudava, trabalhava e namorava as escondidas porque a sogra não aceitava o relacionamento dos dois. Seis meses de namoro e Valeria  vê- se aflita diante de uma possível gravidez. O namorado fica feliz com a possibilidade de ser pai, ele herdara a boa índole do pai, não via nada de errado no relacionamento dos dois, pelo contrário tinha certeza que do lado de Valéria estava sua verdadeira felicidade. Com o resultado positivo passaram a ficar mais unidos ainda e também passaram a ser mais perseguidos pela mãe do rapaz. O tempo passa, o nascimento do filho de Valéria em nada abranda a fúria do coração da avó que não os aceita de maneira alguma.
Ela é obrigada a trancar a faculdade e para trabalhar deixa o menino na creche. O namorado de Valéria, sempre está presente, mas não ajuda muito financeiramente, pois a mãe lhe passa parcos recursos,  com promessas de aumentar a mesada se ele se afastar do filho e de Valéria. Senão bastasse, Valéria sente seu coração apertado, o filho com apenas um ano de idade e sua intuição diz que está novamente grávida. Dessa vez, não teve o esperado apoio do namorado, o que ela viu no rosto do amado foi uma expressão de medo e de desilusão. Ele ficou vários  dias sem aparecer, e  numa tarde fria de junho chegou com uma desculpa para se afastarem. A mãe havia lhe dado um ultimato: ou se afasta definitivamente da pobretona que arrumara, ou todas as suas mordomias serão cortadas, não terá mais dinheiro, nem carros, nem viagens,  queria vê- lo casado com alguém da mesma classe social, não com uma aproveitadora, procriadora de filhos. Ele explicou que continuará ajudando na medida do possível, que a ama e a seus filhos, mas que não pode assumi- la contra a vontade da mãe, pois depende totalmente dela. Valéria chorou a noite inteira, quando se levantou pela manhã, tomada de enjôos, a cabeça latejando, foi com muito custo que levou o filhinho para a creche, e se dirigiu para o trabalho, sendo surpreendida pela  carta de demissão que estava a sua espera. Passou pelo departamento pessoal, como se estivesse pisando em nuvens, as têmporas latejando, o enjôo acentuara. Pegou o pequeno na creche, e foi para a casa como se o mundo tivesse desabado sobre sua cabeça.
Sabia apenas chorar.
Não, não, estava fazendo tudo errado. Decidiu não mais chorar, era preciso pensar e tomar uma decisão em seu favor e de seus filhos. O ódio e o desprezo apagavam o enorme amor que sentia pelo namorado. Não, seus filhos não tinham pai, jamais saberiam quem era o covarde que os pusera no mundo. Pensou com calma, não derramou mais uma lágrima sequer. Ela provará para aquela família que não precisa deles, nem ela nem seus filhos. Lembrou- se da madrinha que mora em Goiânia, que lhe considera muito e com quem sempre mantem contato. Corajosamente ligou e contou o que estava acontecendo. A madrinha a acolhe, tem amor suficiente para ela e os filhos, diz que sua casa e o seu coração estão de portas abertas.
Passados mais de vinte anos, Valéria sente- se cansada, mas não abatida. Não é alegria o que sente nem é tristeza. Mas tem a certeza de que agiu corretamente e no tempo certo, contando aos filhos tudo que acontecera no seu passado. Descrevera a cidade provinciana que viveram por tão pouco tempo, não escondera nada pois eram rapazes inteligentes, ambos donos de suas próprias vidas, bem sucedidos na carreira que escolheram e independentes financeiramente. Chegara a hora de mostrar que vencera, cuidara dos filhos sem precisar do pai e da família dele.
Sempre ouvira dizer que a vingança é um prato que se come frio, mas ela não se vingará com sangue, será uma revanche sadia, que deixará envergonhados aqueles que desejaram que ela sucumbisse, depois de tantos anos motivada pelo desejo de vingar- se mostrando justamente o contrario, a deixa leve como uma pluma.
Escorraçaram- na da cidade, não no sentido lato da palavra, mas de maneira covarde e velada. Agora retornava, fortalecida,  não  naquele ônibus velho, caindo aos pedaços, que aliado ao seu mal estar gravídico, até hoje lhe provoca náuseas. Não, ela volta  no automóvel caro e veloz do filho mais velho, que por sinal é esculpido em Carrara ao pai. O Outro mais novo vai no banco da frente conversando sobre Leis e processos com o irmão, e as vezes ouve os comentários da mãe que sempre fora a mentora e a sócia mais laborosa do Escritorio de Advocacia mais movimentado de Goiânia.
Ao vislumbrar a placa de Boas Vindas, sentiu um frio na barriga, o coração acelerou, e sentiu uma imensa vontade de voltar atrás. Mas não havia mais como retroceder....



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Nívea Sabino


Nívea Sabino


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