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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A BUSCA



Cabelos desgrenhados, corpo franzino, a pele clara e enrugada queimada pelo sol do dia e ressecada pelo frio das noites passadas ao relento. Não existe mais beleza no mundo para ela.
Mas nem sempre fora assim, sua infância transcorreu feliz na provinciana cidade do interior mineiro, aproveitou bem a adolescência, na juventude enfrentou a universidade com louvor, foi quando conheceu o amor. Enamorou- se dele e o amor deu frutos, não cem por um, mas de dois em dois, de um em um. Por breves quarenta anos ela seguiu o amor, por muitas estradas, bifurcações, terrenos arenosos e pedregosos, andou por terra, sobre a água, voou no ar, acompanhando – o sequer por caminhos de luz e paz. Foram tempos árduos, mas ao mesmo tempo abundante de felicidade. Construiu com o amor a casa sobre a rocha. Mas uma noite o amor se foi, assim de repente, dormiu tão sereno e partiu tão sorrateiramente. E ela que não aprendeu caminhar sem o amor de tantos anos, sente- se amputada, falta- lhe o pedaço mais precioso, seu coração partiu com o amor.
Mesmo acariciada e amada pelos frutos desse amor e pelos frutos dos frutos, desistiu de viver aquela vida plena que rescendia o cheiro amoroso de mãe e avó.
Surtou, foi viver pelas ruas, sem destino certo, sem parada. Nos seus gestos tresloucados quer apenas expressar sua dor, entre a calma e a pausa do sono, lá no intimo de sua alma, nos sonhos está aquele a quem busca. Nessas breves horas de lucidez ela pede aos Céus que abrevie seus dias, ela tem pressa de Reencontrar o amor de sua juventude e com ele em outra dimensão recuperar a serenidade perdida.

Nívea Sabino

terça-feira, 28 de setembro de 2010

TIÃOZINHO DO SINDICATO



Conheço o Tiãozinho da mais tenra idade. Não acho meritório dizer que tenha sido um bom menino, desses quietinhos e sem fôlego. Sempre afoito e irrequieto, correndo atrás de sonhos.  Passou a adolescência e parte de sua juventude cheio de histórias irreverentes que corriam a boca pequena.
Cidade provinciana, mesmo não tendo poucos habitantes tem dessas coisas, aquele mais ousado vira personagem lendário.
Tiãozinho é uma lenda viva. Moreno, costas largas que carregam o mundo tentando resolver seus problemas. Sorriso aberto, desses que cativam as pessoas, mesmo as que discordam de suas idéias. Aperto de mão forte, desses que só os amigos sinceros possuem. Essa é a melhor forma de descrever esse personagem tão verídico quanto sua vida. Sua idade não importa é jovem e idoso, depende da ocasião, mas sempre com um coração puro de criança. O nome é de origem grega e significa reverenciado, mas seu sucesso vem sendo conquistado à medida que se doa aos outros. Tiãozinho do Sindicato é uma pessoa que tem história.  
Poderia dizer que o destino quis, mas cristão católico diz que é a Providencia Divina que proporcionou que o jovem de espírito arrebatador se tornasse um homem de brio, desses que dão a cara a tapa, mas que jamais sai com as costas lanhadas. As inquietudes da juventude tornam- se alavanca para mudar o mundo, a começar pela pacata cidade de água boa e refrescante que arrebata o coração dos visitantes.
É preciso coragem para ser líder e ao mesmo tempo servir os que dele precisam. Um Dom Quixote Mineiro? Não seria bem assim, porque não há moinhos de ventos no Triangulo Mineiro.
A luta se tornou grande, e os interesses cresceram, não há apenas colegas de trabalho precisando de sua ajuda. No papel de sindicalista defende uma classe, muitas vezes com excesso de exposição de sua pessoa. Basta sair perguntando quem se lembra do caixão com cronômetro?  Embora o admire não digo que ele seja perfeito, posto que é vascaíno, e sou corinthiana desde sempre.
Futebol à parte, o que importa é a arte, ou melhor, a ciência da política, pois é preciso pensar grande, porque amplo é o pensamento do estadista. Assim seus olhos se abrem, sua visão se amplia.
E num dia ensolarado com pássaros cantando, Tiãozinho decide que é preciso ser mais para servir melhor. E não só ele quer, o povo anseia e clama por seu sangue político.
Cidade provinciana é bom frisar, o povo não vê o vereador como Legislador, mas enxerga nele um pai, que foi eleito para pagar contas de energia, de água, para dar dinheiro, remédio, é batalha secular tentar explicar o obvio.
Mas o nosso protagonista tem feito bem a sua parte. Tiãozinho sente um desejo ardente em sua alma de combater injustiças, essa fome voraz pelas coisas certas veio de berço. Segue firme, elaborando projetos de leis, gritando por justiça na Tribuna, trabalhando para ver sua cidade de água deliciosa e de povo hospitaleiro virar metrópole.
É aqui nesse momento mágico, de homens e Leis, embaraços e projetos que a linha de nossas vidas se cruza.  O homem político, o homem pai, o homem sindicalista, aquele que tem sede de justiça, põe bálsamo na ferida que trago na carne, no espinho que rasga os músculos do meu coração. Meu filho, com o mesmo ímpeto de justiça, hoje mora no Céu. E através de um Projeto, o edil jovem e prudente que secretaria a Câmara da bela e pacata cidade, o eternizará. Um belo gesto, dentro do contesto de distância que a morte impõe.
A vida, falo dessa e da eterna, tem dessas coisas, uniu dois jovens pela linha tênue do tempo, um estudante da Lei, outro que  faz a Lei.
Aquele cujo coração puro e presença amada que todos sentem a ausência, será eternizado porque seu nome não será esquecido, a lei para ele passou, mas fez- lhe justiça. O outro rogo a Deus que o conserve por longos anos fazendo e cumprindo as leis dos homens e amando a Lei de Deus, e lutando pela cidade que agora está distante de nós transformar- se em um lugar melhor para se viver.


Nivea Sabino

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O FORASTEIRO (Conto Original)




Surge a noite pintando de negro o horizonte, realçando a enorme placa de letras prateadas, que fincada no meio do canteiro ornado por relva e flores úmidas de sereno, exibe na entrada da cidade a inscrição gravada em letras garrafais :  “SEJA BEM VINDO A..."

O nome da cidade não é importante para o forasteiro que se aproxima cuja idade é indefinida; olhos negros e profundos marcados por espessas sobrancelhas igualmente negras, olhar taciturno que revela um homem perverso e desalmado; a boca hostil não sabe sorrir. A barba negra disforme define seu sinistro semblante. Veste roupas sujas e carcomidas; calça um velho par de tênis imundo. O porte físico é grotesco; pernas e braços musculosos, comandados pela mente pervertida por alguma doença mental severa ou pura misantropia. Seu corpo nutre-se de sua mentalidade deturpada.
Precisa descansar, está andando horas a fio. Vive numa fuga sem trégua, sem saber do que foge, sem ter para onde ir. Seus pés estão cansados, doloridos de tanto andar, não sabe precisar quantas horas ou quantos quilômetros andara até chegar até ali.
A pequena cidade exibe ruas limpas, algumas cobertas com o asfalto negro e liso, outras calçadas de pedra. O lugar está em paz. Suas casas de portas abertas, embora com grades para defendê-las, não aparentam medo da violência como ocorre nas cidades grandes. Talvez por conhecerem-se uns aos outros, sabem como defender- se de suas próprias concupiscências e justamente por isso não estão preparados para enfrentar o mau que chega com o desconhecido.
As pessoas olham de soslaio para o andarilho, os cabelos negros cacheados, desgrenhados lhe cobrem a nuca. Enquanto caminha a passos lentos, observa tudo a sua volta.
As casas fechadas, escondidas atrás de fortes grades, lhe parecem hostis. Sabe que é persona non grata, em todos os lugares que aparece.Está acostumado com a indiferença e o asco que é tratado. Descobriu que tem o poder de ser superior, em certos momentos seu demônio interior desperta, e toda a sua maldade e sua força, voltavam- se contra aqueles que são inferiores, em força e tamanho. Nessas horas, não sente prazer propriamente, apenas certa satisfação por ter seu instinto animalesco saciado.
Andou mais um pouco, saindo assim do alcance dos olhares indiscretos e desconfiados, próprios de moradores de cidades provincianas.
Sentou-se no meio fio, à beira da calçada, comeu um pedaço de pão velho que tirou do bolso sujo e bebeu água de uma garrafa pet. Passavam das 20 horas, saiu caminhando, sentia- se satisfeito, pois tapara o buraco do estomago, por hora está com outro tipo de fome.
Andou sem rumo por várias quadras, até vislumbrar uma rua arborizada. Reparou os jardins bem cuidados na frente das casas com arvores sombreando os passeios, ele sentiu o cheiro doce das flores cujo perfume inebriava-o, mas sua atenção está voltada interessadamente para a linda menina de lindos cabelos castanhos. Os belos cachos iam até quase a cintura, soltos ao sabor do vento.
Seu rostinho de bochechas rosadas e lindos olhos cor de mel a fazem semelhante a um anjo em figura de gente. Animada e cheia de vida, brinca solitária na frente de casa. Canta uma musica infantil enquanto pedala a pequena bicicleta vermelha, de rodas prateadas, com um cestinho na frente, onde estão acomodados um ursinho marrom e uma boneca pequena e magra, de roupas coloridas.
Ouvem- se vozes no alpendre da casa, enquanto a menina brinca, ele, precavido parou a alguns metros de distancia e passou a observar a cena que se desenrolava frente a seus olhos cobiçosos.
Foi chegando devagar, e ninguém viu nada, nem mesmo houve tempo para que a pequena gritasse....
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niveaveiga@hotmail.com
  
  Nivea Sabino

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SAUDADE

Num passado distante, o sentir saudades se resumia em lembranças nostálgicas da época de criança, saudades dos parentes que moravam longe, dos amigos que se perderam no tempo...
Depois que nascem os filhos, quando pequenos a saudade muda de jeito e de cor, vira um desejo louco para chegar do trabalho, e abraçar cada um deles, ou seja, é outra saudade...
Depois que eles crescem, viajam de férias,  sentem-se saudades que são acalentadas com telefonemas e beijos fonados, seguidos de um cuide-se embargado, mas que breve se resolvem com apertos e carinhos...
Adolescência evoluindo, os filhos vão estudar fora, outra malvada saudade!
Aguardar os feriados prolongados, as férias para amenizar a falta e a carência.
Ah! Mas essas saudades todas se matam!
A do tempo passado, dos amigos perdidos, da infância dos filhos, das primeiras viagens que fazem sozinhos, das faculdades longe de casa, essa saudadezinha opaca é amenizada com a alegria do tempo presente.
Meu Deus, a saudade dura, aquela que não tem remédio, essa de todos os sentimentos por Vós criados, é a mais triste.
Essa saudade deve ter nascido quando o Filho do Homem deixou Vossa Onipotente Presença para andar pela Terra junto à Vossa criação.
Essa saudade é semelhante a uma fome voraz, que devora por dentro, quem a sente, é o espinho rasgando a carne vilipendiada do coração.
Tem dias que é semelhante a um balão de festa se inflando no peito,
Deus meu, essa saudade que dá vontade de sair correndo gritando pelas ruas, bem alto, até ficar rouca e sem forças.
 Essa saudade não tem cura, essa saudade nada no mundo mata.
Nesses momentos sente- se como é distante o céu, como é misterioso, pois está ao alcance das vistas,  a alma sente em si a presença do céu, invadindo o corpo o espírito, mas ao olhar com os olhos da saudade lá no horizonte, o CÉU é inatingível.
A única forma encontrada para amenizar essa saudade é nos sonhos...
Mas Deus, e quando o sonho é ruim...?
Quando no sonho o anjo está triste, chorando, faltando pedaços, Oh!  Deus a saudade dobra nessa hora, e a inquietação toma conta do ser.
Se ao menos nos sonhos o filho aparecesse sorrindo sempre, distribuindo beijos e abraços... Não! Nem assim existe alívio...
Ainda que haja sonhos e neles encontros abstratos, que existam os álbuns, nada adianta.
Não existe consolo!
Nem as fotos (cada vez mais antigas), que caladas ouvem os desabafos de dor e saudade.
O dia termina o pensamento nele!
O dia começa pensamento nele está.
Que saudade meu Deus, que saudade!

Nivea Sabino

ABANTESMA



ABANTESMA

O milharal recende seu aroma por toda a moradia. A plantação começa desde a porta da cozinha. É uma cerca viva que impede a visão da porteira da fazenda, que fica a alguns metros de distancia da casa. Ali corre uma água fresca vinda da mina, a bica d’água tem som de paz. O líquido abençoado é canalizado naturalmente e represado num tronco de madeira escavada, que serve para lavar as louças e utensílios da cozinha. Tudo muito rudimentar.
Meu tio Alfredo, mora só. Não tem boa reputação nas redondezas, por causa de sua fama de matador profissional. É o único irmão de meu avô e quando os pais morreram, ficou morando na propriedade rural da família, cuidando do gado e da plantação. Nunca se casou, ficava um tempo “sumido”, e corria o boato que se afastava para executar o outro tipo de serviço encomendado por alguém ansioso em se desfazer de algum desafeto. Comentavam as más línguas que ele havia silenciado dezenas de homens e com o dinheiro angariado comprou ouro e enterrou em algum lugar da fazenda. No pequeno vilarejo próximo as terras de meu tio se ouvem falatórios e mexericos sobre ele dizendo que se aposentara porque matou um homem por engano e desde então tornou- se mais arredio e cismado; outros diziam que aquietara porque já estava velho e muito rico. Ainda hoje não sei se havia alguma verdade nas historias que contavam sobre ele, ou se os boatos não passavam de mera especulação.
Alfredo é um homem rústico que vive sua vida de solidão nesse rincão tranqüilo. Enamorado da lua que enche os olhos e o coração de inspiração poética, e em qualquer fase é sua única companheira, embora distante e solitária, ao som de voz entoando cantigas de viola, baila no céu que na noite escura parece um tapete estrelado. O roceiro também admira o sol, tanto que acorda junto com ele, e banhado pelos primeiros raios do astro rei, se espreguiça e logo já está no terreiro pegando lenha para acender o fogão, então coa um café forte, que toma puro.
Segue rigorosamente seu labor cotidiano, dorme cedo, levanta com o sol, toma o gole de café que ele mesmo planta, colhe e torra, em seguida sela o cavalo, põe o inseparável chapéu sobre a cabeleira grisalha e vai bater pasto. Por volta das 10 horas, ele retorna e prepara seu almoço, depois descansa um pouco deitado no confortável sofá da sala, ouvindo seu velho radio, sintonizado sempre na freqüência AM.
Certo dia, Alfredo chega do roçado e como sempre lava o rosto e vai no quintal buscar uns paus de lenha para reavivar a chama do fogão e preparar seu almoço quando ouve um barulho, mas o milharal está quieto, deduz então que deve ser o cachorro, que de tão velho e manso não late mais. Acende o fogo, pega água na bica, enche a panela e deixa sobre a chapa, em seguida apanha algumas espigas de milho dos pés próximos a casa, retira as folhas, sente o cheiro apetitoso dos grãos, o milho verde dá água na boca.
Quando retorna, adentrando a porta da cozinha, ouve alguém chama- lo pelo nome e ao virar- se o pistoleiro descarrega a arma sem piedade.
Na cozinha a panela ferve no fogão sobre a lenha crepitante, no quintal as espigas se esparramam misturadas na poça de sangue.
Meu pai é o único herdeiro, recebe a noticia da morte e da herança. Formalizado o formal de partilha, meus pais decidem passar uns dias na fazenda, ver de perto em que pé estão as coisas por lá ...

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

A HISTÓRIA DE ELZA


Num dia ensolarado de maio nasceu Elza, criança afável, adolescente sem problemas e uma adulta solitária. Pensando bem a vida de Elza daria um romance. Uma história sem príncipes encantados, sem maridos e filhos. A mulher que hoje vive num Abrigo de Velhos, abandonada pela família um dia foi uma moça dedicada e trabalhadeira. Ela tinha amor próprio, mas sempre colocara as outras pessoas em primeiro plano, servir a todos para depois suprir suas próprias necessidades, seus anseios e sonhos. Estudara mas nunca tivera oportunidade de mostrar suas habilidades num trabalho que pudesse lhe render seu sustento, e por quê? Pura falta de tempo para si mesma. Quando terminou o ensino médio e o curso de Inglês a mãe estava muito doente, o dever de filha mais velha a obrigara a ficar em casa cuidando da mãe e dos irmãos. A enfermidade materna perdurou por vinte longos anos. Os irmãos mais novos estudaram, conseguiram bons empregos, se casaram e Elza teve um grande mérito nessas conquistas, abandonava tudo e corria acudir um e outro. O tempo passou, a mãezinha doente morreu e a vida de Elza também passava. Os anos se diluíam como fumaça e ela ficava de um lado para o outro socorrendo a família, primeiro os de sangue, depois os sobrinhos e atualmente assiste os filhos dos sobrinhos. Está com setenta anos de idade, mas em pleno vigor físico, a mente lúcida consegue processar tudo a sua volta. Tia Elza faz o que sabe fazer, é uma ótima babá, cozinheira e arrumadeira. Às vezes se aventura em tarefas arriscadas. Esse foi seu erro fatal. O menininho da sobrinha neta queria um biscoito, cuja lata estava no alto de um armário. Sem malicia a velha senhora pega uma cadeira  quebrada e despenca lá de cima. Gritos de dor seguidos de meses de internação e a confirmação do médico de que jamais voltaria a andar, a queda provocou a fratura do fêmur e devido à sua idade avançada não suportou os pinos. Embora se mostrasse conformada com desígnios de Deus, Elza estava muito abalada com o fato de ser obrigada a substituir suas pernas por uma cadeira de rodas. Chega o dia da alta hospitalar, aparece uma das sobrinhas visivelmente contrariada para busca- la. A tia convalescente a recebe com sorriso, pois sempre auxiliara a parente todas as vezes que foi requisitada e sem pedir nada em troca. Com tristeza ouve os resmungos da mulher: - Como pessoa idosa e imprestável dá trabalho.

Desde o acidente que a pobre Elza vivia numa verdadeira Via Crucis, ia de Herodes a Pilatos, mas não encontrava acolhida nos lares da família. Sem filhos, sem amor, hoje ela olha o mundo lá fora pela pequena janela do asilo. É dia de visitas, ela espera ganhar um sabonete de presente, quem sabe um creme hidrante, ou um corte de cabelos. Embora nunca tenha se preocupado com o amanhã de sua vida profissional, ela sempre fora uma mulher vaidosa, cuidava dos cabelos e gostava de usar um leve perfume  de flores. Nesse dia em especial, a solitária velhinha, talvez pela expectativa de receber visitas, sente sua alma melancólica, uma estranha paz inunda seu espírito. Olhando pela janelinha, ela vê o jardim e um beija flor pousando numa rosa vermelha, seus olhos ficam pesados e um cochilo agradável amortece seu corpo debilitado. Nessa hora ela ouve vozes que falam baixinho, talvez para não tira- la daquele leve torpor. Relutando contra o pesado sono, ela vislumbra à sua frente a sua mãezinha a quem ela dedicara boa parte de sua vida, feliz sorrindo para ela, fazendo gestos com a mão convidando a se levantar e ir até ela. A mãe não está sozinha ali. Elza vê os irmãos pequenos que criou como seus filhos, e os filhos dos irmãos e todos a quem ela sempre generosamente se doou. Nesse doce delírio ela pensa feliz que:

- A família lembrou- se dela...


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Nívea Sabino

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