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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SAUDADE

Num passado distante, o sentir saudades se resumia em lembranças nostálgicas da época de criança, saudades dos parentes que moravam longe, dos amigos que se perderam no tempo...
Depois que nascem os filhos, quando pequenos a saudade muda de jeito e de cor, vira um desejo louco para chegar do trabalho, e abraçar cada um deles, ou seja, é outra saudade...
Depois que eles crescem, viajam de férias,  sentem-se saudades que são acalentadas com telefonemas e beijos fonados, seguidos de um cuide-se embargado, mas que breve se resolvem com apertos e carinhos...
Adolescência evoluindo, os filhos vão estudar fora, outra malvada saudade!
Aguardar os feriados prolongados, as férias para amenizar a falta e a carência.
Ah! Mas essas saudades todas se matam!
A do tempo passado, dos amigos perdidos, da infância dos filhos, das primeiras viagens que fazem sozinhos, das faculdades longe de casa, essa saudadezinha opaca é amenizada com a alegria do tempo presente.
Meu Deus, a saudade dura, aquela que não tem remédio, essa de todos os sentimentos por Vós criados, é a mais triste.
Essa saudade deve ter nascido quando o Filho do Homem deixou Vossa Onipotente Presença para andar pela Terra junto à Vossa criação.
Essa saudade é semelhante a uma fome voraz, que devora por dentro, quem a sente, é o espinho rasgando a carne vilipendiada do coração.
Tem dias que é semelhante a um balão de festa se inflando no peito,
Deus meu, essa saudade que dá vontade de sair correndo gritando pelas ruas, bem alto, até ficar rouca e sem forças.
 Essa saudade não tem cura, essa saudade nada no mundo mata.
Nesses momentos sente- se como é distante o céu, como é misterioso, pois está ao alcance das vistas,  a alma sente em si a presença do céu, invadindo o corpo o espírito, mas ao olhar com os olhos da saudade lá no horizonte, o CÉU é inatingível.
A única forma encontrada para amenizar essa saudade é nos sonhos...
Mas Deus, e quando o sonho é ruim...?
Quando no sonho o anjo está triste, chorando, faltando pedaços, Oh!  Deus a saudade dobra nessa hora, e a inquietação toma conta do ser.
Se ao menos nos sonhos o filho aparecesse sorrindo sempre, distribuindo beijos e abraços... Não! Nem assim existe alívio...
Ainda que haja sonhos e neles encontros abstratos, que existam os álbuns, nada adianta.
Não existe consolo!
Nem as fotos (cada vez mais antigas), que caladas ouvem os desabafos de dor e saudade.
O dia termina o pensamento nele!
O dia começa pensamento nele está.
Que saudade meu Deus, que saudade!

Nivea Sabino

ABANTESMA



ABANTESMA

O milharal recende seu aroma por toda a moradia. A plantação começa desde a porta da cozinha. É uma cerca viva que impede a visão da porteira da fazenda, que fica a alguns metros de distancia da casa. Ali corre uma água fresca vinda da mina, a bica d’água tem som de paz. O líquido abençoado é canalizado naturalmente e represado num tronco de madeira escavada, que serve para lavar as louças e utensílios da cozinha. Tudo muito rudimentar.
Meu tio Alfredo, mora só. Não tem boa reputação nas redondezas, por causa de sua fama de matador profissional. É o único irmão de meu avô e quando os pais morreram, ficou morando na propriedade rural da família, cuidando do gado e da plantação. Nunca se casou, ficava um tempo “sumido”, e corria o boato que se afastava para executar o outro tipo de serviço encomendado por alguém ansioso em se desfazer de algum desafeto. Comentavam as más línguas que ele havia silenciado dezenas de homens e com o dinheiro angariado comprou ouro e enterrou em algum lugar da fazenda. No pequeno vilarejo próximo as terras de meu tio se ouvem falatórios e mexericos sobre ele dizendo que se aposentara porque matou um homem por engano e desde então tornou- se mais arredio e cismado; outros diziam que aquietara porque já estava velho e muito rico. Ainda hoje não sei se havia alguma verdade nas historias que contavam sobre ele, ou se os boatos não passavam de mera especulação.
Alfredo é um homem rústico que vive sua vida de solidão nesse rincão tranqüilo. Enamorado da lua que enche os olhos e o coração de inspiração poética, e em qualquer fase é sua única companheira, embora distante e solitária, ao som de voz entoando cantigas de viola, baila no céu que na noite escura parece um tapete estrelado. O roceiro também admira o sol, tanto que acorda junto com ele, e banhado pelos primeiros raios do astro rei, se espreguiça e logo já está no terreiro pegando lenha para acender o fogão, então coa um café forte, que toma puro.
Segue rigorosamente seu labor cotidiano, dorme cedo, levanta com o sol, toma o gole de café que ele mesmo planta, colhe e torra, em seguida sela o cavalo, põe o inseparável chapéu sobre a cabeleira grisalha e vai bater pasto. Por volta das 10 horas, ele retorna e prepara seu almoço, depois descansa um pouco deitado no confortável sofá da sala, ouvindo seu velho radio, sintonizado sempre na freqüência AM.
Certo dia, Alfredo chega do roçado e como sempre lava o rosto e vai no quintal buscar uns paus de lenha para reavivar a chama do fogão e preparar seu almoço quando ouve um barulho, mas o milharal está quieto, deduz então que deve ser o cachorro, que de tão velho e manso não late mais. Acende o fogo, pega água na bica, enche a panela e deixa sobre a chapa, em seguida apanha algumas espigas de milho dos pés próximos a casa, retira as folhas, sente o cheiro apetitoso dos grãos, o milho verde dá água na boca.
Quando retorna, adentrando a porta da cozinha, ouve alguém chama- lo pelo nome e ao virar- se o pistoleiro descarrega a arma sem piedade.
Na cozinha a panela ferve no fogão sobre a lenha crepitante, no quintal as espigas se esparramam misturadas na poça de sangue.
Meu pai é o único herdeiro, recebe a noticia da morte e da herança. Formalizado o formal de partilha, meus pais decidem passar uns dias na fazenda, ver de perto em que pé estão as coisas por lá ...

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

A HISTÓRIA DE ELZA


Num dia ensolarado de maio nasceu Elza, criança afável, adolescente sem problemas e uma adulta solitária. Pensando bem a vida de Elza daria um romance. Uma história sem príncipes encantados, sem maridos e filhos. A mulher que hoje vive num Abrigo de Velhos, abandonada pela família um dia foi uma moça dedicada e trabalhadeira. Ela tinha amor próprio, mas sempre colocara as outras pessoas em primeiro plano, servir a todos para depois suprir suas próprias necessidades, seus anseios e sonhos. Estudara mas nunca tivera oportunidade de mostrar suas habilidades num trabalho que pudesse lhe render seu sustento, e por quê? Pura falta de tempo para si mesma. Quando terminou o ensino médio e o curso de Inglês a mãe estava muito doente, o dever de filha mais velha a obrigara a ficar em casa cuidando da mãe e dos irmãos. A enfermidade materna perdurou por vinte longos anos. Os irmãos mais novos estudaram, conseguiram bons empregos, se casaram e Elza teve um grande mérito nessas conquistas, abandonava tudo e corria acudir um e outro. O tempo passou, a mãezinha doente morreu e a vida de Elza também passava. Os anos se diluíam como fumaça e ela ficava de um lado para o outro socorrendo a família, primeiro os de sangue, depois os sobrinhos e atualmente assiste os filhos dos sobrinhos. Está com setenta anos de idade, mas em pleno vigor físico, a mente lúcida consegue processar tudo a sua volta. Tia Elza faz o que sabe fazer, é uma ótima babá, cozinheira e arrumadeira. Às vezes se aventura em tarefas arriscadas. Esse foi seu erro fatal. O menininho da sobrinha neta queria um biscoito, cuja lata estava no alto de um armário. Sem malicia a velha senhora pega uma cadeira  quebrada e despenca lá de cima. Gritos de dor seguidos de meses de internação e a confirmação do médico de que jamais voltaria a andar, a queda provocou a fratura do fêmur e devido à sua idade avançada não suportou os pinos. Embora se mostrasse conformada com desígnios de Deus, Elza estava muito abalada com o fato de ser obrigada a substituir suas pernas por uma cadeira de rodas. Chega o dia da alta hospitalar, aparece uma das sobrinhas visivelmente contrariada para busca- la. A tia convalescente a recebe com sorriso, pois sempre auxiliara a parente todas as vezes que foi requisitada e sem pedir nada em troca. Com tristeza ouve os resmungos da mulher: - Como pessoa idosa e imprestável dá trabalho.

Desde o acidente que a pobre Elza vivia numa verdadeira Via Crucis, ia de Herodes a Pilatos, mas não encontrava acolhida nos lares da família. Sem filhos, sem amor, hoje ela olha o mundo lá fora pela pequena janela do asilo. É dia de visitas, ela espera ganhar um sabonete de presente, quem sabe um creme hidrante, ou um corte de cabelos. Embora nunca tenha se preocupado com o amanhã de sua vida profissional, ela sempre fora uma mulher vaidosa, cuidava dos cabelos e gostava de usar um leve perfume  de flores. Nesse dia em especial, a solitária velhinha, talvez pela expectativa de receber visitas, sente sua alma melancólica, uma estranha paz inunda seu espírito. Olhando pela janelinha, ela vê o jardim e um beija flor pousando numa rosa vermelha, seus olhos ficam pesados e um cochilo agradável amortece seu corpo debilitado. Nessa hora ela ouve vozes que falam baixinho, talvez para não tira- la daquele leve torpor. Relutando contra o pesado sono, ela vislumbra à sua frente a sua mãezinha a quem ela dedicara boa parte de sua vida, feliz sorrindo para ela, fazendo gestos com a mão convidando a se levantar e ir até ela. A mãe não está sozinha ali. Elza vê os irmãos pequenos que criou como seus filhos, e os filhos dos irmãos e todos a quem ela sempre generosamente se doou. Nesse doce delírio ela pensa feliz que:

- A família lembrou- se dela...


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Nívea Sabino

domingo, 25 de julho de 2010

O ENGANADOR




A madrugada fresca e cheirando a terra molhada, marca o final do mês mais esperado do ano. Dali a alguns dias será natal. As famílias em geral aguardam ansiosas pelas festas de confraternização. A pequena cidade interiorana ainda é um bom lugar para morar. A moça de longos cabelos vermelhos dirige- se para a casa.  A contragosto faz o turno da noite, infelizmente não tem outra escolha, pois trabalha no restaurante de um posto de gasolina instalado na beira da estrada. A condução a deixa numa avenida a quatro quadras de sua residência. Um mal estar interior havia incomodado a jovem durante todo o dia. A sensação de que um leão faminto a rodeava dava- lhe calafrios. Ela confia em Deus e sempre reza ao seu anjo da guarda pedindo- lhe proteção, principalmente quando é obrigada a andar sozinha pelas ruas desertas do seu bairro que fica muito afastado dos demais. Faz o percurso em sobressalto principalmente porque há uma onda de crimes acontecendo na cidade, cujas vítimas sempre são mulheres sozinhas. Ela pensa no filhinho que ficou em casa aos cuidados da prima. O marido caminhoneiro passa muito tempo na estrada, ambos poupam dinheiro para pagar o terreno onde construirão a tão sonhada habitação da família.

Toda a população anda em polvorosa devido aos crimes hediondos que acontecem há alguns meses. O retrato falado do suposto assassino em série fora veiculado em toda a mídia, cópias foram entregues nos estabelecimentos comerciais da cidade, e a moça que caminha sozinha também tem seu pensamento voltado para a tal descrição. Avançando mais duas esquinas estará sã e salva no calor de seu lar.
O destino, porém não lhe deu seu beneplácito, a moça tem seus cabelos agarrados, a dor é imensa, ela sente as garras  rasgando a pele e arrancando pedaços de carne de seu pescoço, mas ela não consegue gritar sua boca está como que amordaçada, seus olhos não podem enxergar mais nada,  sem sentido mergulha nas trevas. Ela tem suas roupas arrancadas e um torpor  toma conta de sua mente, o odor de algo semelhante a enxofre inunda suas narinas. Os minutos que se seguem parecem durar uma eternidade, ela está entre o céu e a terra, dores atrozes a fazem desejar a morte, mas o pensamento no filho e no marido a obrigam a lutar pela vida. Ela ouve frases desconexas durante o trajeto que não sabe aonde a levará. Perdera a noção do tempo, mas tem certeza que o local que a estão levando é longe. Ela não distingue rostos, nem sexo, tem a impressão de estar entre feras ou bestas humanas, o mau cheiro é nauseabundo, o medo que a domina é descomunal. Num momento de lucidez ela distingue a porteira da entrada de uma fazenda. É arrastada pelo chão, todos os seus ossos doem. Ela consegue distinguir várias figuras vestidas de preto ao redor de uma mesa de pedra, como se fosse um altar de sacrifícios... 

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Nívea Sabino

sábado, 24 de julho de 2010

HERESIA




O escritório de Advocacia, não tem luxo, mas é um lugar muito aconchegante. A janela tem cortinas sóbrias, e os móveis não são convencionais. A advogada está sentada frente à tela do computador redigindo uma petição inicial, aguardando o próximo cliente, pensativa toma um cafezinho e reflete sobre sua carreira, afinal as criticas aos advogados costumam ser ferrenhas. As piadinhas então são um sucesso. Mas na prática é uma profissão árdua, talvez mais que muitas outras. O Fórum não funciona plenamente na parte da manhã, data vênia, livres de piadas e críticas os promotores e juízes têm um labor mais tranqüilo. Em contrapartida os Escritórios de Advocacia no horário matinal trabalham a todo vapor. E muitas vezes os profissionais liberais escolhem menos que são escolhidos, haja vista a enorme possibilidade de escolhas por parte dos clientes. Em certa cidade do interior, que possui uma praça central arborizada se comenta com certo ar de gozação que se atirar para cima caem dez pardais dos galhos da árvore e cem advogados juntos. A causídica chega cedo a seu local de trabalho, pois a manhã voa e muitas vezes o almoço é substituído por um lanche rápido porque partir do meio dia que são marcadas as audiências, algumas conciliatórias, outras “brigatórias” sem possibilidade de acordo. Ela arruma os documentos na pasta, passa a mão nas petições a ser protocoladas e lá vai a doutora para mais uma via crucis no Palácio da Justiça, deduzindo que o cumprimento da pauta seria rápido e quiçá eficaz, pois vale mais um bom acordo que uma boa demanda. Sempre andando rápido, formulando mentalmente as perguntas e imaginando argumentos, nem mesmo o sol escaldante, ou os outros transeuntes tinham o poder de lhe tirar a concentração. Ajeita os óculos, arruma os cabelos, veste a beca, cumprimenta os colegas no saguão, senta-se e aguarda a chamada pelo Oficial Porteiro. Analisa a cópia do processo. Remexe os arquivos mentais, não se recorda quem é o cliente. Lembra-se bem que não recebeu os honorários ainda, mas isso não vem ao caso, o importante agora é defendê- lo da melhor maneira. O burburinho de gente, em nada atrapalha, ela já está acostumada a pensar em meio ao barulho. Começa a convocação das partes, entram todos para a sala, onde está sentado em destaque o magistrado, ao seu lado o escrivão que digita a ata da audiência, do outro lado o promotor de justiça. Na mesa larga e comprida reservada para as partes, senta-se de um lado a parte contrária representada pela autora da ação e seu procurador. De outro a advogada e o seu deslembrado cliente. O juiz inicia a audiência perguntando se há acordo entre as partes. Ninguém se manifesta. A parte adversa retruca:

- seu juiz ele sumiu com a escritura da casa. Num muxoxo a mulher aguarda a palavra do meritíssimo, que se dirige à advogada:

- Dra. Pergunte ao seu cliente pelos documentos do imóvel. (Minutos antes, ela prevenida instruiu o seu cliente para responder apenas o que o juiz perguntasse sem rodeios e alertou o mesmo de que não poderia pedir o auxílio dela, advogada para responder as perguntas que lhe são dirigidas). Antes mesmo de qualquer manifestação por parte de sua procuradora, o homem diz em alto e bom som, com uma voz meio bêbeda:

- Doutô eu fumei os documento. O Juiz incrédulo pergunta:

- O senhor fumou a escritura?

- Fumei sim sinhô... E os caderno das criança tamém. (Abaixa a cabeça)

O juiz indaga:

- Como assim? O senhor diz que fumou a escritura da casa, e todos os cadernos de seus filhos?

- Ainda de cabeça baixa, o inquirido responde:

- Sim sinhô!

A ex mulher, do outro lado da mesa resmunga:

- E a minha bíblia também, Seu juiz!

O juiz já bastante espantado:

- A bíblia? Mas o senhor fumou a bíblia toda?

- A bíblia toda não doutô, que a capa era dura!

Depois dessa, melhor a ilustre advogada tirar o resto da tarde de folga.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

VINDICTA





A noite estava fria, e  a rodoviária totalmente exposta acentuava ainda mais o vento gélido que batia no rosto de Valéria, fazendo suas lágrimas descerem úmidas e geladas pela face abatida.
O filhinho dorme mansamente em seu regaço, alheio a toda tribulação que ocorre em suas vidas.
Valéria sempre fora uma mulher de fibra.  O casal que empregava seu pai, donos da fazenda que eles residiam levaram- na ainda criança para morar com eles, com o propósito de ajudar nos afazeres domésticos e em contrapartida estudar na cidade. Sentia desejo de visitar a família, mas o pai trabalhava como administrador rural e não tinha parada, até que perdeu totalmente o contato com a família. Os patrões sempre a trataram com respeito e dignidade, mas são muito idosos e quando fez 10 anos que residia com eles, a mulher ficou viúva, e a solidão foi a causa do seu definhamento. Os filhos vieram quando a patroa faleceu e depositaram na caderneta de poupança, uma espécie de indenização pelos anos de serviços prestados por Valéria aos seus pais, além do pequeno apartamento no antigo edificio da cidade. Não era muito, mas Valéria estava acostumada a economizar. Sempre estudara em escola pública e com esforço e dedicação conseguiu passar no vestibular para Direito quando estava com dezessete anos de idade.
Sobreviver apenas com os juros da poupança era quase impossível, mesmo não pagando aluguel, portanto resolvera entregar seu currículo em todas as firmas da cidade. Cidadezinha do interior, não tem muitas opções de emprego, mas espera que o curso de secretariado sirva para arranjar trabalho, pois faltam ainda dois anos para o bacharelado.
Finalmente chega uma proposta de emprego, de um grande frigorífico da cidade, cujos donos eram pessoas influentes na sociedade.  Já ouvira comentários de que a empresa fazia parte de um dos pólos importantes de processamento de carnes do país, e que esse era um setor muito poderoso, que apresentou nos últimos anos elevados lucros com as exportações de carne.
O ritmo de trabalho no frigorífico, diziam ser muito acelerado, e que os trabalhadores faziam jornadas muito intensas, não tinham  tempo de ir ao banheiro. Que  eram obrigados a produzir determinado número de cortes por minuto. E isso em ambientes muito frios com temperaturas de 10°C ou menos. Ela ouvira dizer ainda que o dono da Empresa falecera e que a viúva administrava tudo com mãos de ferro, que o único filho era a pupila dos olhos da mãe.
Mas isso não tem a menor importância para Valeria, pois acredita que será apenas mais uma funcionária, trabalhando  longe das câmaras frias,  cujos contatos se restringirão  apenas às chefias do baixo escalão.
Na segunda feira chegou antes do inicio do expediente.
Nervosa aguarda o chefe de sua seção chegar. Reza para não gaguejar e entrar no ritmo do novo emprego.
Exatamente há uma semana que ocupa o quadro de funcionários do Frigorífico, nada de espetacular ainda ocorreu, até que vê adentrar no saguão principal, e se dirigir para sua mesa, o homem mais lindo que já vira em toda sua vida. Sente seu coração pular no peito, suas pernas amolecerem, fica estática olhando para ele, e a atração foi recíproca, pois o rapaz moreno, não muito alto, de sobrancelhas negras, boca carnuda e um sorriso encantador, demora alguns segundos para perguntar a ela se o supervisor de manutenção se encontra.
Valeria recupera o bom senso e pergunta quem devia anunciar. Surpresa ve- se diante do dono, ou melhor do filho da dona do frigorífico.
Depois desse primeiro contato, vieram muitos outros, e vieram também as juras de amor eterno, as promessas de uma vida a dois, regada a felicidade como se a vida fosse um mar de rosas.
Valéria, estudava, trabalhava e namorava as escondidas porque a sogra não aceitava o relacionamento dos dois. Seis meses de namoro e Valeria  vê- se aflita diante de uma possível gravidez. O namorado fica feliz com a possibilidade de ser pai, ele herdara a boa índole do pai, não via nada de errado no relacionamento dos dois, pelo contrário tinha certeza que do lado de Valéria estava sua verdadeira felicidade. Com o resultado positivo passaram a ficar mais unidos ainda e também passaram a ser mais perseguidos pela mãe do rapaz. O tempo passa, o nascimento do filho de Valéria em nada abranda a fúria do coração da avó que não os aceita de maneira alguma.
Ela é obrigada a trancar a faculdade e para trabalhar deixa o menino na creche. O namorado de Valéria, sempre está presente, mas não ajuda muito financeiramente, pois a mãe lhe passa parcos recursos,  com promessas de aumentar a mesada se ele se afastar do filho e de Valéria. Senão bastasse, Valéria sente seu coração apertado, o filho com apenas um ano de idade e sua intuição diz que está novamente grávida. Dessa vez, não teve o esperado apoio do namorado, o que ela viu no rosto do amado foi uma expressão de medo e de desilusão. Ele ficou vários  dias sem aparecer, e  numa tarde fria de junho chegou com uma desculpa para se afastarem. A mãe havia lhe dado um ultimato: ou se afasta definitivamente da pobretona que arrumara, ou todas as suas mordomias serão cortadas, não terá mais dinheiro, nem carros, nem viagens,  queria vê- lo casado com alguém da mesma classe social, não com uma aproveitadora, procriadora de filhos. Ele explicou que continuará ajudando na medida do possível, que a ama e a seus filhos, mas que não pode assumi- la contra a vontade da mãe, pois depende totalmente dela. Valéria chorou a noite inteira, quando se levantou pela manhã, tomada de enjôos, a cabeça latejando, foi com muito custo que levou o filhinho para a creche, e se dirigiu para o trabalho, sendo surpreendida pela  carta de demissão que estava a sua espera. Passou pelo departamento pessoal, como se estivesse pisando em nuvens, as têmporas latejando, o enjôo acentuara. Pegou o pequeno na creche, e foi para a casa como se o mundo tivesse desabado sobre sua cabeça.
Sabia apenas chorar.
Não, não, estava fazendo tudo errado. Decidiu não mais chorar, era preciso pensar e tomar uma decisão em seu favor e de seus filhos. O ódio e o desprezo apagavam o enorme amor que sentia pelo namorado. Não, seus filhos não tinham pai, jamais saberiam quem era o covarde que os pusera no mundo. Pensou com calma, não derramou mais uma lágrima sequer. Ela provará para aquela família que não precisa deles, nem ela nem seus filhos. Lembrou- se da madrinha que mora em Goiânia, que lhe considera muito e com quem sempre mantem contato. Corajosamente ligou e contou o que estava acontecendo. A madrinha a acolhe, tem amor suficiente para ela e os filhos, diz que sua casa e o seu coração estão de portas abertas.
Passados mais de vinte anos, Valéria sente- se cansada, mas não abatida. Não é alegria o que sente nem é tristeza. Mas tem a certeza de que agiu corretamente e no tempo certo, contando aos filhos tudo que acontecera no seu passado. Descrevera a cidade provinciana que viveram por tão pouco tempo, não escondera nada pois eram rapazes inteligentes, ambos donos de suas próprias vidas, bem sucedidos na carreira que escolheram e independentes financeiramente. Chegara a hora de mostrar que vencera, cuidara dos filhos sem precisar do pai e da família dele.
Sempre ouvira dizer que a vingança é um prato que se come frio, mas ela não se vingará com sangue, será uma revanche sadia, que deixará envergonhados aqueles que desejaram que ela sucumbisse, depois de tantos anos motivada pelo desejo de vingar- se mostrando justamente o contrario, a deixa leve como uma pluma.
Escorraçaram- na da cidade, não no sentido lato da palavra, mas de maneira covarde e velada. Agora retornava, fortalecida,  não  naquele ônibus velho, caindo aos pedaços, que aliado ao seu mal estar gravídico, até hoje lhe provoca náuseas. Não, ela volta  no automóvel caro e veloz do filho mais velho, que por sinal é esculpido em Carrara ao pai. O Outro mais novo vai no banco da frente conversando sobre Leis e processos com o irmão, e as vezes ouve os comentários da mãe que sempre fora a mentora e a sócia mais laborosa do Escritorio de Advocacia mais movimentado de Goiânia.
Ao vislumbrar a placa de Boas Vindas, sentiu um frio na barriga, o coração acelerou, e sentiu uma imensa vontade de voltar atrás. Mas não havia mais como retroceder....



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Nívea Sabino


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